ANJOS, F. C Fábio Cristovão dos Anjos. Tecnologia do Blogger.

Produtos e cirurgia prometem “devolver” virgindade. Pra quê?

(Getty Images)
Não lembro como foi a minha primeira vez. A primeira vez em que uma mulher me perguntou se tal produto à venda nos sex shops para “recuperar a virgindade” realmente funcionava. Lembro apenas de ter achado bizarro que o mercado erótico tenha desenvolvido algo do gênero e fui pesquisar o chamado “adstringente vaginal” – também vendido por algumas marcas como “redutor vaginal”, custa em média R$ 15. Digamos que eles funcionam como aqueles géis anti-acne, sabe?
Mas… em vez de controlar a oleosidade da pele, ele “seca” momentaneamente a lubrificação natural da vagina. Isso faz com que o pênis tenha dificuldade de entrar e deslizar: o homem sente o canal mais estreito e apertado. É só uma sensação, não significa que a xots realmente diminuiu de tamanho ou fez dieta. Nunca usei pra dizer se funciona de verdade. Caso queira testar, preste atenção se a embalagem traz a indicação “dermatologicamente testado” e “para uso íntimo”.
Há quem vá além dos cosméticos eróticos e do bom senso, recorrendo à himenoplastia. Sim, inventaram uma cirurgia plástica para reconstruir o hímen. Sim, uma das pioneiras no Brasil foi a modelo (?) Angela Bismarchi, seguida por gente como a Miss Bumbum Indianara Carvalho. Nos sites de clínicas especializadas, descrevem que é possível colocar uma cápsula gelatinosa com corante vermelho para simular o sangramento (!!!). Alguém avisa o motorista do busão-sociedade que eu já puxei a cordinha e quero descer.
Vários médicos criticam essa cirurgia porque ela não é funcional. Ou seja, não é que o hímen esteja provocando dor ou falta de orgasmos. A maioria que procura o procedimento quer “apimentar” o relacionamento, “dar a virgindade” ao novo marido. Outras pacientes sofrem pressões culturais/religiosas (não “guardaram” a virgindade antes do casamento ou temem que o não-sangramento submeta ao julgamento moral). Existem também aquelas que foram vítimas de abuso sexual e acreditam no benefício psicológico da cirurgia.
Não me conformo que esse minúsculo “pedaço de pele” localizado na entrada do canal vaginal seja digno de tamanha importância em pleno 2016. Perder a virgindade é uma experiência emocional, não pode ser reduzida ao ato de um pênis arrombando uma membrana fininha. Meninas entre 13-17 anos me revelam fazer com frequência sexo oral e anal, mas se definem virgens. Percebe como é complexo? Como as religiões que proíbem o sexo antes do casamento lidam com essa questão – o que pode ou não pode na prática?
O hímen determinou o destino de muitas mulheres ao longo da História. Se rompesse nanoite de núpcias, manchando os lençóis de sangue exibidos às famílias na manhã seguinte, estava comprovada a ~pureza~. “Ó, que beleza: ela é virgem! ”, saíam comemorando pelas redondezas sem qualquer pudor. Virgindade era também a garantia de que a recém-casada daria filhos legítimos ao marido – não traria o bebê de outro na barriga.
Agora, se a tal película não rompesse nem sangrasse, a igreja e a justiça anulavam o matrimônio. Em algumas culturas (até hoje!), a mulher era expulsa de casa ou mesmo agredida e assassinada. Com medo de que isso acontecesse, mães precavidas tinham truques como deixar um potinho com sangue de galinha embaixo da cama para que fosse derramado enquanto o homem dormia. Ou preparavam uma tripa de carneiro com sangue do animal para que a moça introduzisse na vagina antes do sexo.
Pouquíssimas pessoas sabiam que o hímen às vezes se rompe em atividades bestas como andar a cavalo, praticar esportes, usar absorvente interno ou durante a masturbação. Por isso uma coisa não tem nada a ver com a outra. Outro dado anatômico/ginecológico importante: existem CINCO tipos diferentes de hímen, do mais fechado-resistente ao mais aberto-flexível (que não se parte na primeira transa). Você pode ser completamente virgem e não ter nenhum sangramento na penetração.
Sei lá, tomara que um dia as pessoas se preocupem tanto com o hímen de uma mulher quanto descobrir se ela retirou ou não as amígdalas. Que diferença faz?
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Sobre o autor Fábio Anjos

Biólogo Licenciado em Ciências Biológicas, pela Universidade Estadual Vale do Acaraú UVA-CE, Licenciatura Plena, 2010. Atualmente exerce a função de educador nível médio no Projeto Travessia na rede Estadual de Ensino, na Escola Estadual Nossa Senhora Auxiliadora e como também na rede municipal de João Alfredo. O mesmo possui Pós-graduação Lato Sensu em Análises Clínicas pela Faculdade Frassinetti do Recife-FAFIRE-PE, 2012. Cursando mestrado, pela Faculdade Norte do Paraná, no curso de Ciências da Educação e Multidisciplinaridade e cursando espanhol pela Universidade de Pernambuco.
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