ANJOS, F. C Fábio Cristovão dos Anjos. Tecnologia do Blogger.

Tudo vai bem no Brasil de Dilma

Estava assistindo ao pronunciamento de Dilma quando me lembrei do motivo do horror que tenho pelo discurso da presidenta. Fazia algum tempo que eu não a ouvia, não me lembrava que era assim, mas bastou alguns segundos do discurso dela para o sangue me subir dos mamilos à cabeça e um refluxo com gosto de Clight pitanga me vir à garganta:

“O Brasil passa por um momento diferente do que vivemos nos últimos anos. Mas nem de longe está vivendo uma crise nas dimensões que dizem alguns.”
Depois:
“Estamos na segunda etapa do combate à mais grave crise internacional desde a grande depressão de 1929.”
Que cara de pau! Os Estados Unidos e a Europa crescem mais do que o Brasil. Essa crise internacional é aquela que fez os Estados Unidos crescerem 5% no terceiro trimestre de 2014 e gerar 300 mil empregos num único mês? A América Latina, tirando Venezuela e Argentina, também crescem mais do que aqui. E, atualmente, há apenas 5 países com inflação maior do que o Brasil - 3 deles em guerra: Rússia, Ucrânia e Egito.
Não entendo esses ilusionistas cuja principal função na vida é provar que tudo vai bem no Brasil. Estou falando dessas pessoas que estão dizendo por aí que a insatisfação com o governo vem da elite branca, da burguesia: “Não por parte dos trabalhadores, mas por parte da burguesia insatisfeita.”
Eu aceitaria o argumento se essas pessoas não falassem o que falam usando binóculos de suas varandas gourmet para avaliar a crise lá fora. Só uma criatura que não rela em pobre há algum tempo que não consegue imaginar o que acontece na periferia, por exemplo.
Como eu moro na periferia, vou contar um pouco como funciona:
Quando uma pessoa que mora na periferia tem um compromisso no centro da cidade, ela precisa fazer uma conta de cabeça para saber que horas volta para a casa. Se passa das 22h, esquece, não tem mais como sair de casa a não ser que você volte no dia seguinte.
Uma pessoa que mora na periferia poderia comprar um carro para resolver esse problema, mas atualmente o Brasil tem uma das maiores taxas de juros do mundo e a possibilidade de financiar um carro é praticamente impossível no momento.
Ou ela poderia pegar um táxi, dirá você, com voz anasalada, mas os taxistas recusam-se a levar o passageiro para a periferia (no meu bairro, pelo menos, eles não levam), por ser perigoso demais - então essa possibilidade também não existe.
Ela poderia voltar de transporte público, mas além do aumento da passagem para 3,50, em São Paulo, a frota de ônibus diminuiu na cidade e a espera e a dor de cabeça aumentaram - depois da meia-noite, não há transporte público para voltar para casa se você mora na periferia.
Ela poderia usar bicicleta, mas a vida civilizada na cidade fica a mais de 12 km de casa. Para trabalhar, você chegaria suado e precisaria de um banho. A depender do dia da semana, não haverá água por causa da crise hídrica.
Ela poderia arrumar um emprego melhor e ganhar mais para poder se mudar, mas em ano de recessão, empresas diminuem contratações e o desemprego aumenta bem no momento em que o governo muda as regras e dificulta o acesso ao seguro desemprego.
Ela poderia se especializar, mas lê no jornal que o ministério da educação cortou bilhões na área e atrasou pagamentos do Pronatec.
Poderia pensar em viver uma vida mais simples, menos dispendiosa, mas com uma inflação prevista para mais de 8% este ano, uma cesta básica que ficará cada vez mais cara e aumento na conta de luz em 70%, é praticamente impossível cortar os custos de casa.
Poderia pedir ao amigo que viaja para o exterior comprar o que ela precisa - com o dólar a mais de 3,10?
Poderia, então, desistir de tudo e encher a cara, mas com aumento de imposto sobre bebidas, no fim do ano passado, virar alcoólatra é um novo luxo.
No entanto, há os que acreditam que o incômodo vem da classe alta, na tentativa de desmerecer os protestos contra esse governo. Não, Juca; a verdade é que ninguém tem mais motivos para protestar do que o pobre. É que você precisa descer do seu apartamento, pegar o 5178 Jardim Miriam para ouvir as reclamações no ônibus e o barulho do panelaço na periferia. 

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Sobre o autor Fábio Anjos

Biólogo Licenciado em Ciências Biológicas, pela Universidade Estadual Vale do Acaraú UVA-CE, Licenciatura Plena, 2010. Atualmente exerce a função de educador nível médio no Projeto Travessia na rede Estadual de Ensino, na Escola Estadual Nossa Senhora Auxiliadora e como também na rede municipal de João Alfredo. O mesmo possui Pós-graduação Lato Sensu em Análises Clínicas pela Faculdade Frassinetti do Recife-FAFIRE-PE, 2012. Cursando mestrado, pela Faculdade Norte do Paraná, no curso de Ciências da Educação e Multidisciplinaridade e cursando espanhol pela Universidade de Pernambuco.
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