ANJOS, F. C Fábio Cristovão dos Anjos. Tecnologia do Blogger.

De Pedra Sobre Pedra a Império: um bate-papo com Aguinaldo Silva

Todo santo dia, após o Jornal Nacional, milhões de pessoas param em frente à TV para acompanhar os momentos finais de Império (o penúltimo capítulo vai ao ar nesta quinta, 12 de março). Hipnotizar os brasileiros é feito constante na vida de Aguinaldo Silva, nosso entrevistado de hoje. Da mesma forma que Império seduz o telespectador, Pedra Sobre Pedra arrebatou a audiência quando fora exibida às 20h, em 1992. Agora no VIVA, a novela repete o feito. Aguinaldo já provou o sabor de sucesso com inúmeros trabalhos, desde sua estreia na série Plantão de Polícia até a trama que vem mobilizando o país, passando por minisséries, coautorias, realismo fantástico até a novela de maior audiência da última década, a aclamada Senhora do Destino. Na entrevista abaixo, o autor comenta o final deImpérioPedra Sobre Pedra e Fera Ferida, uma das próximas novelas do VIVA. Vamos conferir?

Reviva - Aguinaldo Silva


1 - Pedra Sobre Pedra nasceu de uma notícia de jornal, que motivou a criação de Jorge Tadeu (Fábio Jr.). Talvez um caso único de novela que tenha sido criada a partir de uma trama paralela. Como foi desenvolver a sinopse desta novela? Quais os maiores destaques da trama para você?


Pedra Sobre Pedra foi uma novela abençoada em que tudo deu certo, um trabalho inspirado do diretor-geral Paulo Ubiratan, que escolheu um elenco de primeira e uma trilha sonora só com deuses da música popular brasileira. A trama de Jorge Tadeu é aquela da qual os telespectadores mais se lembram quando se fala nesta novela, mas eu me sinto sempre muito emocionado quando revejo cenas relacionadas com o personagem Sérgio Cabeleira (Osmar Prado). A cena em que ele é “levado” pela lua, mesmo sem contar com os recursos digitais de que hoje dispomos, ainda é para mim a mais espetacular que já vi numa novela.

2 - Na novela das 14h30 do VIVA, podemos notar, sutilmente, a homossexualidade de Adamastor (Pedro Paulo Rangel), apaixonado por Carlão (Paulo Betti), seu patrão. Em Império, vimos a homossexualidade de Cláudio Bolgari (José Mayer) ser exposta na internet, abrindo espaço para a discussão sobre invasão de privacidade. Ao longo de todos esses anos, a abordagem do tema se tornou mais tranquila ou ainda há a necessidade de se policiar para não desagradar o público? Acredita que evoluímos na aceitação dos homossexuais no Brasil, de 1992 para cá?

Costumo ver a novela com o real time, que mede a audiência, ali do lado. E sempre constato que nas cenas sobre o tema homossexualismo, a audiência oscila. Ou seja: deve-se tratar o tema, sim, a novela não pode se abster de ampla, geral e irrestrita na abordagem dos temas que, afinal, são do dia a dia do telespectador... Mas deve fazê-lo sempre com muito cuidado. De todos os temas aos quais às novelas têm se dedicado nos últimos tempos a questão do homossexualismo continua sendo o mais delicado.

3 - Pedra Sobre Pedra é um dos expoentes do chamado “realismo fantástico”, que dominou muitas das produções escritas pelo você na década de 90. Em Império, vimos passagens que remetiam a tal gênero, como a poção que possibilitou a José Alfredo (Alexandre Nero) simular sua morte e o rejuvenescimento de Cora (Drica Moraes / Marjorie Estiano) com xixi de jacaré. O senhor acredita que ainda há espaço para novelas totalmente voltadas ao “realismo fantástico” ou o mesmo ficará restrito a pequenas incursões em novelas mais realistas, como ocorreu em Império?

O realismo fantástico perdeu terreno porque a realidade tornou-se fantástica, absurda demais. Veja o exemplo da piscina cheia de euros na qual o comendador “tomou banho”. Eu me baseei no noticiário dos jornais sobre a suspeita de que um cidadão, sob investigação policial, tivesse mandado aterrar a piscina de sua mansão com uma fortuna em dinheiro lá dentro. Acho que, neste momento e no futuro próximo, o caminho da novela é retratar essa realidade absurda em que agora vivemos, no que eu chamaria de “naturalismo fantástico”.

4 - Ao término de Pedra Sobre Pedra você declarou, em um artigo para o jornal O Globo, que o triângulo amoroso formado por Hilda (Eva Wilma), Murilo (Lima Duarte) e Pilar (Renata Sorrah) ganhou novos contornos em virtude do brilhante trabalho dos atores em questão. Agora, em Império, permanece a incógnita com relação aos destinos de Maria Marta (Lília Cabral), José Alfredo (Alexandre Nero) e Maria Ísis (Marina Ruy Barbosa). O que podemos esperar para este trio nos capítulos finais da trama? Quais outras emoções a última semana de Império nos reserva?

O segredo, ainda que cada vez mais difícil de ser mantido, continua sendo a alma deste nosso negócio de escrever novelas. Assim, não posso lhe dizer qual será o destino de Maria Marta, José Alfredo e Maria Isis no final da novela. Claro, vários desfechos já foram divulgados, inclusive o que eu entreguei à produção. Mas isso não significa que no capítulo da próxima sexta-feira os telespectadores tenham um final totalmente diverso. O que posso lhe adiantar é que, além do que entreguei, tenho mais dois guardados no meu cofre, e estes só serão entregues ao diretor-geral Rogério Gomes para gravação no dia em que um deles irá ao ar.

5 - Em breve, o público do VIVA poderá rever mais um trabalho seu, Fera Ferida, também escrito em parceria com Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares. Quais os principais atrativos de Fera Ferida? E quais de seus trabalhos você gostaria de ver no VIVA?

Fera Ferida radicaliza ainda mais o estilo das minhas novelas anteriores - a que chamam de “realismo mágico”. Neste sentido, ela ousa como nenhuma outra. Tudo pode acontecer na cidadezinha em onde se passa a novela, que originalmente se chamaria Nova Califórnia, título do conto do escritor Lima Barreto no qual me inspirei para criar a novela. Depois de Fera Ferida ainda “me exercitei” no gênero realismo mágico em A Indomada, e depois um pouco menos em Porto dos Milagres, até ver que, pelo menos para mim, o gênero se esgotara. Gostaria de ver justamente esta última no Canal Viva: Porto dos Milagres, baseada no livro “Mar Morto”, de Jorge Amado, ficaria bem na programação desse canal que tanto prestigia nossas produções passadas e assim mostra como temos que nos esmerar para alcançar a mesma qualidade nesse presente... E no futuro.

PEDRA SOBRE PEDRA EM IMPÉRIO!

Quem acompanha Pedra Sobre Pedra no VIVA e não perde um capítulo de Império, saltou do sofá de tanta alegria na sexta passada (06 de março), quando o Comendador José Alfredo (Alexandre Nero) mergulhou em uma piscina de euros, ao som de Pedras Que Cantam, canção de Fagner que embala a abertura da nossa novela das 14h30 e que embalou a abertura de Império no capítulo em questão. A cena bombou nas redes sociais! Aguinaldo Silva, sempre gentil e educado, comentou a sequência para o blog:

"A cena em que José Alfredo toma banho de euros ao som da abertura de Pedra Sobre Pedra, que depois extravasa para os créditos de Império, substituindo por um dia a música dos Beatles, foi uma surpresa para mim... É a prova final do gênio desse grande diretor-geral Rogério Gomes, com quem pretendo trabalhar nas minhas próximas novelas. A ideia foi dele e o resultado foi tão genial, que eu já assisti a cena pelo menos umas doze vezes."

O VIVA QUE EU QUERO VER

Aguinaldo Silva é autor de dois dos maiores sucessos do VIVA: Vale Tudo, escrita comGilberto Braga e Leonor Bassères, e Roque Santeiro, com Dias Gomes. É de sua autoria também a última minissérie inédita exibida no VIVA, Cinquentinha. Outras minisséries escritas por Aguinaldo (Lampião e Maria BonitaBandidos da FalangePadre Cícero eTenda dos Milagres), certamente, seriam muito bem vindas. Assim como as quatro novelas e uma minissérie (que eu amo!) listadas abaixo.


Milton Gonçalves e Raul Cortez em Partido Alto
Partido Alto (1984)

Com a morte de Janete Clair e a saída de Manoel Carlos da TV Globo, o horário das 20h ficou a mercê de Gilberto Braga. A emissora então, após uma experiência com o consagrado Cassiano Gabus Mendes (que escreveu Champagne), resolveu apostar em dois quase estreantes: Aguinaldo Silva e Glória Perez, que assinaram Partido Alto.  Aguinaldo não foi até o fim da trama, mas deixou ali muitos dos elementos que marcariam seus trabalhos posteriores. Dentre eles, o apreço pelas escolas de samba, aqui representadas pela Unidos do Encantado. Destaque para Raul Cortez, como o bicheiro Célio Cruz, patrono da escola, e José Mayer, novinho, como o marginal Piscina, autor do samba-enredo que fez da agremiação campeã do carnaval.


Francisco Cuoco e Malu Mader em O Outro
O Outro (1987)

Denizard de Matos, dono de um ferro-velho, assume a identidade de seu sósia, Paulo Della Santa (ambos vividos por Francisco Cuoco), após a explosão de um posto de gasolina. Ambos moravam na Avenida Atlântica, em pontos distintos, mas nunca haviam se cruzado até o acidente, que causa um verdadeiro rebuliço na vida de suas famílias, em especial de Laura (Natália do Vale), esposa de Paulo, e Índia do Brasil (Yoná Magalhães), companheira de Denizard. O grande destaque de O Outro, no entanto, foi Malu Mader como Glorinha da Abolição, também envolvida com os sósias, lindíssima na capa da trilha internacional, uma das melhores dos anos 80. O Outro marca ainda a primeira parceria de Aguinaldo com Ricardo Linhares.


Betty Faria e Cássio Gabus Mendes em Tieta
Tieta (1989)

A adaptação de Aguinaldo, Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares para a obra de Jorge Amado é tão famosa, e sempre lembrada pelos telespectadores do VIVA, que me faltam palavras pra comentá-la aqui. Betty Faria no auge de sua beleza, como Tieta; Joana Fomm, o maior destaque do elenco com sua Perpétua. Adorava a trama da “inauguração” de Carmosina (Arlete Salles), bem como os tremeliques de Amorzinho (Lília Cabral), sempre que seus hormônios afloravam. Destaque também para a Leonora de Lídia Brondi, em dúvida se contava ou não para Ascânio (Reginaldo Faria), que era moça de vida fácil. Foi com Tieta que Aguinaldo e sua equipe passaram a explorar o realismo fantástico, o grande charme de Pedra Sobre Pedra.


Carlos Alberto Ricelli e Vera Fischer em Riacho Doce
Riacho Doce (1990)

Conheci esta minissérie em uma inesperada reprise às 17h, em 1998. De cara, me encantei com as belíssimas imagens de Fernando de Noronha, cenário da trama. E também com Vera Fischer, linda como Eduarda, a catarinense que se apaixona pelo pescador Nô (Carlos Alberto Ricelli), cujo corpo foi fechado para o amor pela avó feiticeira, Manuela (Fernanda Montenegro). Riacho Doce é recheada de misticismo e de boas tramas paralelas, onde nomes como Beth Goulart (Helena), Luiza Tomé (Francisca) e Nelson Xavier (Capitão Laurindo) se destacam. Sei que o VIVA não vem apostando em minisséries, mas ainda torço, fervorosamente, por uma reprise de Riacho Doce. Quem sabe até entre uma novela e outra? Fica a dica!


Adriana Esteves e Leandra Leal em A Indomada
A Indomada (1997)

Admito: na enquete que fez de Água Viva cartaz da meia-noite, eu torci (e muito!) contra A Indomada. O que não significa que eu não tenha interesse em revê-la. A novela traz Adriana Esteves, talentosíssima, como Lúcia Helena, que cumpre sua triste sina ao se casar com Teobaldo Faruk (José Mayer), homem que salvara a ela e a sua mãe (também Adriana) no passado. Seria uma delícia ouvir outra vez as expressões em inglês aliadas ao vocábulo nordestino. Como não amar o “Oxente, My God!”, da vilã Maria Altiva Pedreira Mendonça e Albuquerque (Eva Wilma, arrasadora!)? Também os bons desempenhos de Ary Fontoura (Pitágoras), Eliane Giardini (Santinha), Luiza Tomé (Scarlet, do “Vem nhanhá!”) e Selton Mello (Emanuel).

Share on Google Plus

Sobre o autor Fábio Anjos

Biólogo Licenciado em Ciências Biológicas, pela Universidade Estadual Vale do Acaraú UVA-CE, Licenciatura Plena, 2010. Atualmente exerce a função de educador nível médio no Projeto Travessia na rede Estadual de Ensino, na Escola Estadual Nossa Senhora Auxiliadora e como também na rede municipal de João Alfredo. O mesmo possui Pós-graduação Lato Sensu em Análises Clínicas pela Faculdade Frassinetti do Recife-FAFIRE-PE, 2012. Cursando mestrado, pela Faculdade Norte do Paraná, no curso de Ciências da Educação e Multidisciplinaridade e cursando espanhol pela Universidade de Pernambuco.
    Comente
    Comentar com Facebook

0 comentários:

Postar um comentário